The Political Construction of Brazil

2017. An encompassing analysis of Brazil’s society, economy and politics since the Independence. A national-dependent interpretation. Three historical cycles of the relation state-society: State and Territorial Integration Cycle (1822-1929), Nation and Development Cycle (1930-1977) and Democracy and Social Justice Cycle (1977-2010). Crisis since then. (Book: Lynne Rienner Publishers)

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Macroeconomia Desenvolvimentista

2016. With José Luis Oreiro e Nelson Marconi. Our more complete analysis of Developmental Macroeconomics – the central economic theory within New Developmentalism. (book)

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Qual é o problema da indústria brasileira?

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Nota no Facebook, 6.2.2019


A recuperação da indústria é decepcionante por três razões além do fato de a taxa de juros continuar alta e a taxa de câmbio ainda estar apreciada: porque a demanda de bens industriais tanto interna quanto externa continua baixa, porque o governo não realizou a política fiscal contracíclica necessária, e porque os empresários ainda não estão se sentido com confiança em relação ao governo.

Depois de uma brutal recessão (2014-2016) a economia brasileira voltou a crescer, mas muito lentamente. Os resultados da indústria de transformação são especialmente negativos. O crescimento em 2018 foi de apenas 1,3%, o deficit comercial da indústria voltou a aumentar, e o processo de desindustrialização continua a ser mais acentuado nos setores de alta e de média-alta tecnologia.
A explicação geral que eu tenho dado para a desindustrialização brasileira a partir de 1990 é a da armadilha de juros altos e câmbio apreciado no longo prazo. Essa armadilha promoveu duas ondas de desindustrialização, a primeira nos anos 1990, em função da abertura comercial e do desmantelamento do mecanismo que neutralizava a doença holandesa, e a segunda nos anos 2010, a partir do momento em que a taxa de câmbio, que se depreciara fortemente durante a crise financeira de 2002, voltou a se tornar fortemente apreciada no final do governo Lula: a preços de hoje, cerca de R$ 2.50 por dólar, quando a taxa de câmbio competitiva ou de equilíbrio industrial devia girar em torno de R$ 4,00 por dólar. No governo Dilma, houve uma desvalorização e a taxa de câmbio passou a girar em torno de R$ 3,20 por dólar, sempre a preços de hoje – incompatível com o crescimento industrial.
Este quadro mudou depois da recessão. Com a queda radical da demanda, a inflação caiu fortemente, e a taxa de juros, embora ainda alta, também caiu. Por outro lado, a taxa de câmbio depreciou-se e hoje está em torno de R$ 3,70 por dólar. Por que, então, a recuperação da indústria é tão decepcionante? A meu ver, por três razões além do fato de a taxa de juros continuar alta e a taxa de câmbio ainda estar apreciada: porque a demanda de bens industriais tanto interna quanto externa continua baixa, porque o governo não realizou a política fiscal contracíclica necessária, e porque os empresários ainda não estão se sentido com confiança em relação ao governo.
No caso da demanda mundial, ainda não se confirmou a recessão anunciada nos países ricos, mas a crise do regime liberal argentino é muito grande e teve um forte impacto na exportação brasileira de manufaturados. Quanto à falta de uma política contracíclica em um quadro de crise fiscal desde 2014, o problema está na falta de coragem ou na ortodoxia liberal do governo. Nem o governo Temer nem o governo Bolsonaro tiveram coragem e capacidade para lograr um forte aumento do investimento público e das empresas privadas concessionárias. Coragem porque essa política envolve uma aposta: que o gasto adicional em investimento público será menor do que o aumento da receita pública decorrente da retomada do crescimento que esses investimentos provocariam. Finalmente, em relação à falta de confiança no governo, ela é compreensível dada sua precariedade e as contradições que o definem. Os economistas liberais apostam na reforma da previdência para que volte essa confiança. Essa reforma é realmente necessária, deverá ser aprovada, e dará certa credibilidade para o governo. Não, porém, o suficiente para que o governo decida aumentar os investimentos, as empresas se sintam tranquilas, as oportunidades de investimento voltem a aparecer, e o Brasil volte a realmente crescer e realizar o alcançamento.
  


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