Luiz Carlos Bresser-Pereira
Nota no Facebook, 30.7.2017.

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Está sendo exibido em São Paulo o último filme de Terence Malick – De Canção em Canção – uma obra-prima de um grande artista que, com grandes intervalos, escreve e dirige filmes extraordinários. Este último equipara-se a Cinza do Paraíso ou a O Novo Mundo. É um filme de uma beleza plástica extraordinária, que não fica nada a dever ao melhor Godard; de uma tensão dramática igual à que encontramos em Hitchcock, embora sem que haja suspense. Mas o que me impressionou, além de uma criatividade artística que nos surpreende e nos maravilha por duas horas, é a angústia individualista dos personagens que o filme mostra. É a busca incessante de uma “liberdade” que afinal não liberta ninguém. É a busca da liberdade ou da realização pessoal que caracteriza o homem contemporâneo, individualista ao extremo, neoliberal. Uma busca que apenas o torna infeliz – prisioneiro de sua própria angústia.
Vendo esse filme eu não pude deixar de me perguntar o que é a liberdade, o que é a felicidade. Não vou responder a esta questão nesta pequena nota, mas tenho certeza que a resposta não é o individualismo possessivo que tomou conta da contemporaneidade, principalmente nos Estados Unidos. Na teoria política existe a oposição entre a liberdade liberal e a liberdade republicana. A liberdade liberal é a de fazer o que você pode, fazer o que quiser e puder, desde que não seja contra a lei; a liberdade republicana é outra coisa: é a de você ser capaz de adotar posições e realizar ações que não consultam a seus interesses pessoais, mas ao interesse público. Na filosofia clássica, a felicidade não é a satisfação de todos os seus desejos ou de todos os seus direitos, mas é a realização dos seus deveres para com os outros, é relacionamento humano e solidariedade. Não é o cinismo, mas a utopia.
Malick não diz isso expressamente em seu filme. Mas seu personagem principal – uma mulher – diz uma coisa fundamental. Afinal ela descobriu que precisa, e muito, de uma coisa que ela pensava que nunca precisaria – de compaixão. Sim, a compaixão é essencial. Precisamos ser compassivos e receber compaixão. O mundo contemporâneo, em oposição ao mundo moderno, não sabe o que é a compaixão, acredita na liberdade liberal e na felicidade individualista, perdeu a utopia. Pobre e angustiado mundo contemporâneo.