Luiz Carlos Bresser-Pereira
Nota no Facebook, 28.4.2018

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Ciro Gomes ainda não formalizou seu programa de governo, mas nas inúmeras conferências que tem feito, nas entrevistas que tem dado, e nas conversas que com ele tive ficou claro para mim que, ao contrário do que acontece com os outros candidatos e para-candidatos, ele já tem esboçado seu programa para o setor econômico. A economia brasileira está semiestagnada desde 1980, presa em uma armadilha de juros altos e câmbio sobreapreciado que impede o investimento industrial, enquanto a desigualdade (o problema maior da sociedade brasileira), que diminuiu na primeira década do século, com Lula no governo, voltou a aumentar. Ciro sabe disto, sabe que não é fácil resolver esses problemas, mas está preparado para enfrentá-los com determinação.
O programa de Ciro é um programa desenvolvimentista e social não-populista. Defende não apenas responsabilidade fiscal mas também responsabilidade cambial; quer não apenas realizar poupança pública que financie o investimento público, mas também equilíbrio da conta-corrente que é condição para que a taxa de câmbio seja competitiva. Defende também uma taxa de juros real baixa, porque são esses dois preços macroeconômicos que estão desajustados no Brasil desde 1990, e que têm impedido o crescimento satisfatório da economia brasileira. Busca, assim, que não apenas o agronegócio e os serviços, mas também as empresas industriais sejam competitivas e invistam. Nestes termos, Ciro rejeita o populismo fiscal, expresso em elevados deficits públicos que desorganizam a economia do país, assim como rejeita o populismo cambial, expresso em elevados deficits em conta-corrente e em taxa de câmbio apreciada que estimula o consumo e desestimula o investimento privado.
No plano internacional, defende a integração da economia brasileira na economia global. Não a integração subordinada, que resulta das políticas liberais e dos respectivos deficits em conta-corrente, mas uma integração competitiva. Mais amplamente, defende a afirmação da nação brasileira. Defende que o Brasil tenha um projeto nacional de desenvolvimento que lhe permita competir com as demais nações no plano econômico enquanto coopera com elas na solução dos grandes problemas comuns da humanidade.
Ao descrever assim o programa de Ciro talvez eu esteja também resumindo o que eu, pessoalmente, quero para o Brasil. Mas poucas vezes o Brasil contou com um candidato à Presidência da República tão preparado como ele. Os erros cometidos no governo Dilma abriram espaço para uma onda ideológica liberal cuja política não é apenas contra os trabalhadores brasileiros; é contra todos os brasileiros exceto uma elite pequena mas poderosa de rentistas e financistas associada aos interesses estrangeiros, que, em conjunto, são os grandes beneficiários da política de deficits em conta-corrente e de dependência desejada em relação aos países ricos. A candidatura de Ciro Gomes é uma oportunidade para interrompermos essa marcha tão medíocre quanto insensata, a qual, no entanto, parece ser a cristalização do “bom senso”, porque parte de uma elite de pessoas bem-pensantes que, geralmente sem o saber, repetem o credo liberal reacionário que é dominante no mundo rico desde os anos 1980.