Luis Carlos Bresser-Pereira
Just published in this website.

E-mails that I send twice a year to my friends, since December 1999, after leaving the Cardoso Administration, reporting my academic and public activities. They are presented in the inverse order, the more recent in the top.
São Paulo, 22.12.2003

Meus amigos,

O segundo semestre de 2003 foi como sempre de muito trabalho. No plano pessoal, as alegrias se misturaram com as tristezas. No plano acadêmico, a coisa mais importante foi haver terminado meu livro a ser publicado pela Oxford University Press, Building the Republican State – Democracy and Public Management Reform. Espero que possa estar nas livrarias no final de 2004. Outra coisa importante foram as seis conferências que fiz na Maison de Sciences de L’Homme, tendo como título “Democracia e Sistema Global”. E fui convidado para ser professor visitante permanente da Maison. Deverei oferecer anualmente um pequeno seminário em Paris.

Neste semestre escrevi também um paper, “Macroeconomia para o Brasil pós-1994”, que é consistente com o paper metodológico que escrevi no primeiro semestre, “Os Dois Métodos da Teoria Econômica”. Nesse paper afirmei que a teoria macroeconômica é necessariamente histórica, mudando quando fatos históricos novos mudam o quadro macroeconômico. Em “Macroeconomia para o Brasil pós-1994”, procurei generalizar sobre a economia brasileira a partir desse pressuposto metodológico. Nele sistematizei meu pensamento sobre a semi-estagnação da economia brasileira, cujas causas estão na nossa incapacidade, nos últimos 23 anos, de alcançar verdadeira estabilidade macroeconômica. E continuei minha luta através de artigos na Folha de S.Paulo e do Valor Econômico pela mudança dessa política – pela inversão da equação macroeconômica perversa de altos juros e baixa taxa de câmbio.

Neste semestre a Editora 34 publicou a 5a. edição de meu livro Desenvolvimento e Crise no Brasil. Estou muito satisfeito com o resultado do meu esforço de atualizar este livro. Creio que é a mais completa análise disponível hoje sobre o desenvolvimento social, econômico, e político do Brasil no século XX. Começa com Vargas e termina com Lula. É uma análise pessoal, organizada sob a ótica da revolução capitalista, e da revolução nacional inconclusa.

Continuei a dar apoio a Yoshiaki Nakano no seu trabalho de criar a Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. Minha expectativa não é apenas de uma escola física, mas de uma escola de pensamento, neo-estruturalista, novo-desenvolvimentista.

O Brasil andou muito devagar neste ano. A confiança externa foi recuperada graças a uma submissão absoluta ao sistema financeiro nacional e internacional, e à ortodoxia convencional que esse sistema apóia. Anexo envio o último artigo que publiquei sobre o assunto, “O Lobo e o Cordeiro”. Na área econômica, apenas a ministra Dilma Roussef inovou, e com coragem e acerto. A política social foi patética. A substituição do Provão por um exame trimestral, por amostragem, um equívoco lamentável. Já no plano externo, nosso desempenho foi bom. Vamos discutir a ALCA sem incluir os temas sensíveis para eles e, o que é importante, também os temas sensíveis para nós. Para a maior integração comercial não é necessário fazer concessões adicionais no plano da propriedade intelectual, das compras governamentais, e dos serviços. Já fizemos demais.

No plano político, a confusão aprofundou-se neste ano. Em um primeiro momento, interpretei a tendência para o centro do governo como um sinal da consolidação da democracia brasileira. De fato, o Brasil não pode ser governado partidariamente; os governos são, por definição, coalizões. Mas aos poucos foi ficando claro que o governo caminhava para a direita, repudiando seus próprios compromissos eleitorais de forma radical. Não há, portanto, consolidação democrática, mas a sua negação, a não ser que os eleitores, nas próximas eleições, punam esse radical desvio dos compromissos assumidos.

No plano internacional, confirmaram-se as previsões de meu paper sobre a guerra do Iraque, “O Gigante fora do Tempo”. A vitória na guerra foi de Pirro. Os Estados Unidos perderam prestígio e confiança em todo o mundo. S