Da equipe do DIARIO Na última sexta-feira, o ministro aproveitou um seminário que havia marcado no Recife - antes da mal-sucedida declaração - para se desculpar oficialmente à comunidade científica pela forma descuidada como se referiu aos nordestinos e para explicar adequadamente o que quis dizer para o repórter do jornal da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Ciência Hoje, com a polêmica frase. Na entrevista a seguir, o ministro Bresser Pereira fala sobre a verba destinada à região, sobre a importância de investimentos em ciência e tecnologia no Nordeste e, como não podia deixar de ser, sobre preconceito contra a comunidade científica local. DIARIO DE PERNAMBUCO - O senhor diz, de acordo com publicação no jornal da Sociedade Brasiileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Ciência Hoje, que pesquisa nos estados mais pobres tende a ser de menor qualidade, investir em ciência no Nordeste é colocar o carro na frente dos bois e é jogar dinheiro fora. O senhor nega ter afirmado isso? Luiz Carlos Bresser Pereira - Ao meu ver, houve um grande mal-entendido. Houve culpa principal do jornal, mas o erro também cabe a mim. Posso pedir desculpas pela parte que cabe a mim. O jornal simplesmente trocou a frase colocar o carro na frente dos bois por colocar capim na frente dos bois. A declaração, no contexto, foi insultuosa para os nordestinos. Também não devia ter usado essa expressão. Foi descuido falar que áreas mais pobres têm pesquisa de menor qualidade. Quis dizer que financiar gente incompetente e despreparada é que era desperdício. Absolutamente não penso que investir aqui é jogar dinheiro fora. O jornalista perguntou por que o Nordeste tinha proporcionalmente menos verba para tecnologia que o resto do Brasil. Disse que a região tinha menos verba em relação à população porque em relação ao PIB e ao número de pesquisadores a região está dentro da média nacional. Há uma desproporção porque a região representa 30% da população brasileira e, ao mesmo tempo, representa 12% dos gastos do ministério com os pesquisadores. Expliquei que essa desproporção acontece porque havia um princípio no CNPq, que é adotado em todos os países, de que as verbas são destinadas aos cientistas pelos próprios cientistas. Eles formam comissões de pares e essas recebem para cada área científica uma certa verba. As comissões examinam os projetos dos colegas e atribuem aos melhores o dinheiro. DP - A visita do senhor ao Estado de Pernambuco foi uma forma de resolver a crise que surgiu após declaração no jornal da SBPC? Bresser - É e não é. Digo que não é, porque essa viagem ao Recife foi marcada a partir de uma conversa com o vice-presidente, Marco Maciel, há um mês e meio, antes da polêmica. Fui tomar café da manhã com Maciel para conversarmos sobre ciência e tecnologia em geral. Na ocasião, disse que achava importante verificar que Pernambuco - que sei que tem os melhores cientistas do Nordeste e alguns dos melhores do Brasil - viveu nos últimos 50 anos um desenvolvimento substancialmente menor que o da Bahia e do Ceará. Discutimos para ver o que era possível ser feito para mudar essa situação. Então, Maciel sugeriu que marcássemos um seminário no Recife. Depois disso apareceu a famosa entrevista. DP - O senhor disse que também veio ao Recife para resolver a crise criada após suas declarações. Por quê? Bresser - É verdade. Disse porque tenho oportunidades de dar entrevistas como essa. DP - O senhor ficou assustado com as reações à declaração? Bresser - Primeiro, fiquei surpreso. Depois, pediram retratação. Não tenho nada do que me retratar. Tenho que pedir desculpas porque fui pouco cuidadoso nas palavras. Se tivesse dito o que pretendia com outras palavras teria resolvido o assunto e me livrava dos problemas. Mas não gosto de me livrar de problemas. Gosto de conversar francamente. Como economista, digo que tenho - sempre disse isso - dois mestres no Brasil. São Celso Furtado e Inácio Rangel, ou seja, um paraibano e um maranhense. Foi com eles que aprendi economia e sociologia. Portanto, por acaso, não tenho sulistas entre meus mestres em economia. Além disso, sou sobrinho de Barbosa Lima Sobrinho. Por isso tenho mais razões para ter enorme apreço pelo Nordeste. DP - O senhor é contra o aumento do percentual de verba destinado para o Nordeste? Bresser - O fato é que há menos cientistas no Nordeste do que no resto do Brasil, em decorrência da pobreza, evidentemente. Isso é um problema que estamos enfrentando com relativo êxito. Então mudar isso seria muito ruim. De repente começar a fazer como um deputado do Ceará que, de forma irresponsável, propôs que 30% da verba da pasta de Ciência e Tecnologia fossem, por emenda constitucional, destinados aos cientistas do Nordeste. Isso é um absurdo. Jogar dinheiro fora seria desmontar o sistema e fazer uma coisa na base dos 30% arrebentando com toda a base que existe no país e em outros países e que os cientistas do Nordeste prezam e respeitam porque são bons cientistas. DP - Então como o senhor acha que deveria ser realizada a distribuição da verba? Bresser - A proporção deve ser de acordo com o número de cientistas e essa proporção é obedecida. Temos alguns programas especiais nas áreas de ciência e tecnologia para o Nordeste, que vêm acontecendo desde 96. Se fosse verdade a informação de que sou um paulista que não respeita o Nordeste, não aconteceria que as verbas para esses programas em 97 fossem de R$ 3 milhões, em 98 de R$ 1 milhão e em 99, só no primeiro semestre de minha administração, fossem de R$ 2,7 milhões. Estou prevendo mais R$ 2,5 milhões até o fim do ano. Além disso, o ministério gasta com ciência cerca de R$ 700 milhões e o Nordeste recebe 12% disso, o que representa cerca de R$ 91 milhões. DP - O senhor contou que, ao assumir, em janeiro deste ano, foi aos Estados Unidos para tratar de um assunto relativo ao antigo ministério. Aproveitou para solicitar que começassem a estudar um programa de financiamento para projetos no Nordeste. Por que aqui? Bresser - Porque aqui o potencial é muito grande. Se você pega as cinco principais universidades federais brasileiras, Pernambuco está sempre entre elas, junto com Rio de Janeiro, Brasília e Rio Grande do Sul. A quinta é que pode haver discussão. Devemos usar melhor esse potencial. Pernambuco tem físicos excelentes, tem a área de ciência da computação extremamente competente. Ia me informar sobre a área de biologia, mas em algum setor deve ser muito forte também. DP - Como o senhor classifica Pernambuco em relação a outros estados do País no tocante aos setores de ciência e tecnologia? Bresser - Eu não sei. Não fiz estudos sobre isso. O que sei é que o Estado de Pernambuco tem muito mais ciência e tecnologia, especialmente ciência, que os demais estados do Nordeste. Sei também que é um dos estados do Brasil com muitos dos maiores cientistas e intelectuais. Por essa razão, fui verificar se a realidade batia com os gastos do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) na região. A média de investimentos dos últimos quatro anos por região mostra que o Nordeste recebeu R$ 50 milhões. Isso quando falamos somente em bolsas e fomento à pesquisa, sem falar em bolsa de mestrado e doutorado. Por pesquisador, o Nordeste teve R$ 12 mil, enquanto a média nacional foi de R$ 14 mil. A região Sul está bem abaixo, com R$ 10 mil, em relação a Pernambuco, que registra R$ 17 mil, muito acima da média. Isso porque temos muitos cientistas aqui, e muito bons. No Nordeste, o Produto Interno Bruto (PIB) é de 0,045, igual à média do Brasil. No estado de Pernambuco, é de 0,078, ou seja, quase o dobro. DP - Que áreas da ciência e tecnologia o senhor considera que devem ser priorizadas no Nordeste? Bresser - Existe no meu ministério o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia que, há dois anos, criou uma comissão para estudar o eixo costeiro do Nordeste e outra para fazer um estudo prospectivo da ciência no Brasil em geral. Na última quinta-feira, por um acaso, eles mostravam para mim como dois setores deviam ser desenvolvidos na faixa costeira do Nordeste: seriam o da indústria têxtil e o do turismo. Ouvi com atenção e disse: olha, esse estudo de vocês é interessante, mas seria mais interessante para o Sesi, o Senai e o Sesc, que fazem treinamento de pessoal importante para essa indústria. Mas, para o meu ministério, não é muito importante. Porque é um ministério que tem pouca verba e quer destinar estrategicamente para a ciência e tecnologia. O critério é pensar nos setores tecnologicamente mais dinâmicos. Porque neles surgem sempre inovações. Disseram que estava tratando a região como periferia, como os americanos e europeus nos tratam. Quem trata o Nordeste como periferia é quem, ao invés de propor que a região tenha como prioridade áreas como biotecnologia e ciência da computação, querem firmar apenas hotelaria e confecções. Disse que como existe potencial na região para isso gostaria que completassem o estudo me arranjando dois setores que fossem baseados em indústrias dinâmicas. Terminaram surpresos, mas ficaram de fazer o estudo. Esse tipo de análise dos integrantes das comissões é o de quem não respeita o Nordeste. DP - Qual sua formação universitária? Bresser - É muito variada. Sou formado em Direito, fiz mestrado nos Estados Unidos em Administração de Empresas e depois doutorado na Universidade de São Paulo (USP), em Economia, além de livre docência, também na USP, em Economia. DP - Que ligação tem essa formação com a pasta que o senhor ministra? Bresser - Como economista, sou cientista social, fiz pesquisas e me interesso bastante pela tecnologia, que está muito ligada à economia. Em terceiro lugar o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso teve o bom gosto ou o mau gosto de me escolher para a pasta. DP - O senhor acha que restaram mágoas entre membros da comunidade científica? Bresser - Não li nada das coisas violentas que disseram a meu respeito aqui nesse último mês. Menos os cientistas, que logo compreenderam. Resta sim mágoa, mas imediatamente fiz uma nota, depois fui na Internet e fiz um e-mail que mandei a todos os cientistas do Nordeste. Pelas respostas que obtive notei que compreenderam. Quando a classe científica estava acalmando, os políticos resolveram pegar o bastão e fazer a onda. Acho que precisavam de motivos para fazer um pouco de briga e mostrar que defendem um pouco a região. Só que estão defendendo contra a pessoa errada. DP - O senhor pretende fazer algo mais, além dessa visita ao Recife, para acabar com qualquer resquício de mal-entendido entre os integrantes da comunidade científica?Bresser - Perguntaram se eu viria até aqui trazer coisas para acalmar os mais exaltados. Não pretendo mudar minha política administrativa, que é de apoio à ciência e à tecnologia no Brasil e particularmente na região Nordeste. Acho que para desenvolver o setor aqui é preciso apenas dispor de um pouco de dinheiro, imaginação e boas idéias. Estou fazendo exatamente isso. Não vim acalmar o Nordeste com mais verbas e promessas porque seria péssimo, pois isso não é do meu feitio. |
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