Luiz Carlos Bresser-Pereira
Novos Estudos Cebrap, 86, março 2010: 51-72.

A crise financeira global de 2008 foi consequência do processo de financeirização, a criação maciça de riqueza financeira fictícia iniciada da década de 1980, e da hegemonia de uma ideologia reacionária, o neoliberalismo, baseada em mercados auto-regulados e eficientes. Embora o capitalismo seja intrinsecamente instável, as lições aprendidas com o crash da bolsa de 1929 e a Grande Depressão da década de 1930 transformaram-se em teorias e instituições ou regulações que levaram aos “30 anos durados do capitalismo” (1948-77) e que poderiam ter evitado uma crise financeira tão profunda quanto a atual. Não o fizeram porque uma coalizão de rentistas e “financistas” conquistou a hegemonia e, enquanto desregulava as operações financeiras existentes, recusou-se a regular inovações financeiras que tornaram esses mercados ainda mais arriscados. A economia neoclássica agiu como uma meta-ideologia ao legitimar, matemática e “cientificamente”, a ideologia neoliberal e a desregulação. Dessa crise emergirá um novo capitalismo, embora sua natureza seja de difícil previsão. Não será financeirizado, mas serão retomadas as tendências presentes nos 30 anos dourados em direção ao capitalismo global e baseado no conhecimento, além da tendência de expansão da democracia, tornando-a mais social e participativa.